Se casou com a “moça da limpeza” e, ao vê-la na noite de núpcias, descobriu uma verdade que ninguém jamais teve coragem de lhe contar.
—Mariana, abre a porta! —a voz de dona Célia ecoou pelo corredor como um trovão.
Mariana Souza apertou o cabo do rodo, engoliu em seco e continuou limpando em silêncio. Naquela casa enorme no bairro nobre do Morumbi, em São Paulo, ela era apenas “a moça da limpeza”.
Vinte e seis anos, olhar baixo, mãos ásperas de tanto cloro.
E, mesmo assim, era a favorita do senhor Ricardo Almeida.
Trinta e dois anos, solteiro, diretor executivo de uma grande multinacional.
No escritório, Ricardo era firme, sério, quase inacessível.
Em casa, quando falava com Mariana, seu semblante suavizava.
Os outros empregados percebiam.
E por isso também cochichavam.
—Dizem que ela foi expulsa da cidade de onde veio… que “se perdeu na vida”.
—Dizem que tem três filhos… de pais diferentes.
Mariana nunca desmentia nada.
Todo mês, quando recebia o salário, quase todo o dinheiro desaparecia em transferências bancárias.
Quando alguém perguntava, ela respondia sem levantar os olhos:
—É para o Joãozinho, o Paulo e a Lia.
E isso bastava.
O resto… as pessoas inventavam.
Ricardo ouviu aqueles comentários inúmeras vezes.
Mas foi na primeira vez em que ficou doente que percebeu por que Mariana era diferente.
Foram duas semanas em um hospital particular.
Febre alta.
Fraqueza.
Noites que pareciam não ter fim.
Os amigos de Ricardo apareceram apenas para “cumprir presença”.
Sua mãe mandou flores caras e telefonava exigindo relatórios médicos.
E Mariana…
Mariana ficou.
Ela molhava sua testa com compressas frias.
Dava caldo na colher, devagar.
Dormia em uma cadeira ao lado da cama, com o pescoço torto.
Quando Ricardo acordava no meio da madrugada, ela estava lá.
Não por obrigação.
Por carinho.
Aquele tipo de carinho que dinheiro nenhum compra.
Numa dessas madrugadas silenciosas, ele a olhou com a voz fraca:
—Por que você faz tudo isso por mim?
Mariana deu de ombros, tímida.
—Porque alguém precisa fazer.
Aquela frase atravessou o peito de Ricardo.
“Alguém.”
Foi naquele momento que ele tomou uma decisão que nem ele mesmo imaginava ser capaz de tomar.
“Não importa se ela tem filhos.
Eu vou amar essas crianças… porque amo a mãe delas.”
Quando recebeu alta do hospital, começou a procurá-la como quem procura ar para respirar.
Levava um café para ela na cozinha.
Deixava bilhetes discretos.
Perguntava se ela já tinha almoçado.
No começo, Mariana se afastava.
—Senhor… o senhor está lá em cima e eu aqui embaixo —dizia, quase implorando—.
—E além disso… eu tenho muitas responsabilidades.
Ricardo não desistiu.
Não prometeu contos de fadas.
Prometeu apenas ficar.
Ficar quando fosse difícil.
Ficar quando todos julgassem.
Ficar quando ela tivesse medo.
E, um dia, Mariana parou de recuar.
Eles começaram um relacionamento.
E a casa… explodiu em choque.
A notícia se espalhou pela casa como fogo em mato seco.
—Ele enlouqueceu.
—O patrão perdeu o juízo.
—Uma moça da limpeza?
Dona Célia, a governanta que trabalhava na casa dos Almeida havia mais de vinte anos, quase deixou cair a bandeja de prata quando ouviu.
—Isso não pode ser sério —murmurou.
Mas era.
Ricardo não estava brincando. Nem se escondendo. Nem pedindo opinião.
Ele simplesmente passou a tratar Mariana diante de todos da mesma forma que tratava quando estavam sozinhos: com respeito, com cuidado… e com uma calma firme que ninguém ali estava acostumado a ver.
No jantar daquela noite, sua mãe, dona Beatriz Almeida, descobriu.
A mesa enorme da mansão no Morumbi estava posta como sempre: toalha branca impecável, taças de cristal, talheres alinhados como soldados.
Mas o clima era outro.
—Ricardo —disse ela, com a voz fria — ouvi algo absolutamente ridículo hoje.
Ele levantou os olhos do prato.
—O quê?
—Que você está… envolvido com a moça da limpeza.
Silêncio.
Mariana, que servia água ao lado da mesa, congelou.
Ricardo não hesitou.
—Não é ridículo. É verdade.
A taça de cristal quase escapou da mão de dona Beatriz.
—Você perdeu o juízo?
—Não.
—Essa menina… —ela apontou discretamente para Mariana — é uma empregada.
Ricardo respirou fundo.
—E é uma pessoa. Uma pessoa boa.
—Boa? —a mãe riu, amarga — você sequer sabe de onde ela veio.
Mariana baixou os olhos.
Ricardo respondeu com calma:
—Sei o suficiente.
—Ah, sabe? Então sabe que ela tem três filhos de homens diferentes?
A sala ficou pesada.
Ricardo olhou para Mariana.
Ela não tentou negar.
Apenas segurou o jarro com as duas mãos.
—Sim —disse ele.
—E mesmo assim pretende continuar com essa… loucura?
Ele pousou os talheres.
—Pretendo me casar com ela.
A cadeira de dona Beatriz raspou no chão.
—Você não fará isso.
Ricardo levantou.
—Eu já decidi.
E saiu da sala.
Naquela noite, Mariana estava limpando a cozinha quando ouviu passos atrás de si.
Ricardo encostou no balcão.
Ela não virou.
—O senhor não devia ter dito aquilo.
—Aquilo o quê?
—Que vai se casar comigo.
Ele deu um pequeno sorriso.
—Mas eu vou.
Mariana virou-se então.
Os olhos dela estavam cheios de medo.
—Ricardo… isso não é um filme.
—Eu sei.
—Sua família vai me odiar.
—Provavelmente.
—As pessoas vão falar coisas horríveis.
—Já falam.
Ela engoliu em seco.
—E quando você se arrepender?
Ricardo se aproximou.
—Não vou.
—Todo homem rico acha bonito salvar uma mulher pobre por alguns meses —disse ela — depois cansa.
Ele balançou a cabeça.
—Eu não estou tentando salvar você.
—Então o que está fazendo?
Ele respondeu devagar:
—Estou escolhendo você.
Mariana ficou em silêncio.
Aquelas palavras pareciam grandes demais para caber naquele momento.
—E meus filhos? —ela perguntou baixinho.
—Também escolho eles.
—Você nem os conhece.
—Então vamos resolver isso.
Ela franziu a testa.
—Como?
Ricardo pegou as chaves do carro.
—Vamos buscá-los.
Ela arregalou os olhos.
—Agora?
—Agora.
Horas depois, estavam na estrada.
Mariana não falava muito. Parecia perdida entre esperança e medo.
—Eles estão em Campinas —explicou ela.
—Com quem?
—Com minha tia.
Quando chegaram, já era madrugada.
A casa era pequena, simples, com luz fraca na varanda.
Mariana bateu à porta.
Uma mulher de meia-idade abriu.
—Mari?
—Tia Rosa…
O abraço foi apertado.
