Mathias passou a mão sobre o ombro de seu pai, e um silêncio estranho, quase irresistível, veio à sala. A música vinha de longe, abafada como se fosse da água. Elise olhou para os dois e sentiu que a realidade estava estourando sob seus pés.
– Porque não me disseste isso? – ela perguntou calmamente, mais Filho do que Leon.
Mathias respirou.
– Porque eu devia estar bem. Crescer. Deixar de viver com medo. E porque já sofreste o suficiente.
Leon ficou de pé, com os olhos abaixados. Ele não tentou explicar-se. Ele estava apenas a ouvir. Pela primeira vez em anos, ele não fugiu.
– Eu falhei, Elise-ele finalmente falou. Sua voz estava baixa e cansada. – Não porque fui trabalhar. Mas isso é porque eu quebrei. Que escolhi o álcool em vez da responsabilidade. Que eu não tive a coragem de voltar e dizer: “eu perdi”.
Elisa sentiu como a raiva que carregava por tantos anos estava começando a desmoronar. Ele não desapareceu, mas deixou de ser agudo. Estava a ficar pesado. Doloroso.
– Sabes qual foi a parte mais difícil? – disse ela. – Não há dinheiro suficiente. Não noites no hospital. Só que estava sozinha e não sabia se ainda existia para ti.
Leon olhou para cima.
– Tu exististe. Cada dia. Só que eu não era forte o suficiente para estar por perto.
O Mathias deu um passo atrás.
– Estou aqui por causa de vocês dois-disse ele. – Mãe, salvaste-me. Papa… ensinaste-me a não desistir. Mesmo através de seus erros.
Elisa sentiu seus olhos se encherem de lágrimas. Ela não chorou no hospital. Ela não chorou no divórcio. Mas agora as lágrimas escorriam por si mesmas, sem vergonha.
– Não sei se posso perdoar-disse ela honestamente. Mas eu sei que não quero mais carregar esse ódio dentro de mim.
Leon assentiu.
– Não peço desculpa. Só estou a pedir uma oportunidade de estar presente. Pelo menos por agora.
Na sala, os convidados voltaram lentamente à conversa. Alguém pôs música. A vida continuou, independentemente dos dramas pessoais.
Elisa respirou fundo.
– Vamos para a rua-disse ela. – Ainda temos muito a dizer. Não como marido e mulher. Não como inimigos. Mas como pais.
Eles saíram para um terraço imperceptivelmente iluminado. O ar da noite era frio, mas limpo. Mathias sorriu – pela primeira vez sem tensão.
Elisa olhou para o céu e percebeu uma coisa simples: nem todas as histórias terminam em amor. Alguns terminam em verdade. Às vezes é o suficiente para seguir em frente.
