A porta da frente se abriu abruptamente, e Felix entrou no apartamento exatamente no momento em que Hannah gritou a última frase. Marta ficou imóvel, com as mãos trêmulas, e na cozinha havia um cheiro pesado de fumaça e comida queimada.
– O que se passa aqui? – perguntou Felix, revezando-se olhando para as duas mulheres.
Hannah imediatamente virou-se para o irmão com os olhos molhados, assumindo o papel de vítima bem conhecido.
– Vês? É nestas condições que tenho de viver! Gritos, ressentimentos, histeria! Eu só queria fazer alguma coisa para ti, e ela atirou-se a mim como uma louca!
A Martha sentiu o sangue a atingir-lhe a cabeça.
– Não mintas. Destruíste a cozinha, destruíste a minha frigideira nova, e depois insultaste-me na tua própria casa.
Felix respirou pesadamente e largou a bolsa. Pela primeira vez, ele não tentou amenizar a situação. Ele olhou em volta da cozinha suja, olhou para a frigideira queimada, para o chão cheio de restos de comida. Olhei para Marta. Seu rosto estava pálido e seus olhos estavam vermelhos de cansaço.
– Hannah-disse ele calmamente – há quanto tempo você mora aqui?
– O que é que isso importa? – ela respondeu irritada. – Eu disse-te que estava a passar por um mau bocado.
– Dois meses se passaram-disse Felix. – Dois meses, durante os quais Marta aguentou mais do que deveria.
A Hannah parou.
– Agora estás contra mim?
– Não-respondeu calmamente. – Mas tenho de ser honesto. Esta situação já não é normal.
– Não tenho para onde ir-disse Hannah, mudando de Tom. – Queres mesmo pôr-me na rua?
Felix ficou em silêncio por alguns segundos. Marta olhou para ele sem dizer uma palavra. Ela não tinha mais forças para lutar, mas não podia viver assim.
– Hannah-disse Félix finalmente-eu lhe pagarei um mês de aluguel em um apartamento de um quarto. Eu ajudo-te a mudar-te. Mas não podes ficar aqui mais tempo.
– O quê?! – a Hannah explodiu. – Vais escolhê-la?!
Felix olhou para cima.
– Não escolho ninguém contra ninguém. Estou a tentar salvar a minha família.
Hannah chorou, mas desta vez não foi um choro teatral. Havia raiva, impotência, talvez até vergonha. Ela apressadamente fez as malas, bateu a porta, murmurou acusações. Quando ela saiu, houve um grande silêncio no apartamento.
Marta sentou-se em uma cadeira e cobriu o rosto com as mãos.
– Não sei se consigo continuar assim, Felix-disse ela calmamente. – Está a desmoronar-se.
Felix aproximou-se e sentou-se ao lado dela.
– Eu sei que cometi erros-disse ele. Pensei que estava a fazer a coisa certa, mas estava a fugir da responsabilidade. Foi mais fácil ajudá-la do que enfrentar a verdade.
Marta levantou os olhos.
– Precisava de ti. Não é um intermediário. Marido.
Felix acenou com a cabeça.
– Se quiseres, podemos ir à terapia. Se precisar de uma pausa, eu aceito. Mas não te quero perder sem tentar consertar as coisas.
Foram semanas difíceis. A Hannah foi-se embora e a relação com ela arrefeceu. Martha e Felix começaram a fazer terapia, falando sobre coisas que evitavam há anos. Não foi fácil, mas pela primeira vez, Marta sentiu que não estava sozinha nessa luta.
Uma noite, sentada no sofá, quando o apartamento estava finalmente em silêncio, Martha disse:::
Sabes, a tua irmã não era o problema principal.
Felix sorriu com tristeza.
– Eu sei. Foi a minha covardia.
Marta colocou a cabeça em seu ombro. Ela não sabia o que o futuro estava esperando, mas pela primeira vez em muito tempo sentiu que eles tinham uma chance real.
