Na manhã seguinte, Ingrid acordou mais cedo do que o habitual. Não porque ela tivesse que fazer algo urgente, mas por causa de seu antigo hábito-sempre me levantaria primeiro, sempre começaria o dia. Alguns segundos depois, ela estava imóvel, ouvindo o silêncio do apartamento. Não houve barulho da cozinha. Nem o barulho dos copos, nem o barulho da máquina de café.
Ela sorriu um pouco.
Ela levantou-se, vestiu o roupão e entrou na cozinha. O Lucas estava lá. Ele estava em frente a um armário aberto, segurando um telefone em uma mão e uma caixa de cereais na outra. Sobre a mesa havia pratos espalhados, um frasco aberto de geléia e uma faca manchada de manteiga.
– Bom dia-disse calmamente Ingrid.
O Lucas encolheu-se.
– Dia … – ele murmurou. – Onde estão as canecas grandes?
– Não sei-respondeu sem emoção. – És responsável pela cozinha.
Ele respirou fundo e começou a procurar mais.
– Emile se levantará em dez minutos-disse Ingrid, derramando água em um copo. – Ele tem de tomar o pequeno-almoço antes da escola. Sabes do que ele gosta de manhã?
Lucas olhou para ela.
– Panquecas?
— Tempo. Às vezes, nem lhes toca. Se eles são muito gordos, ele não vai comer. Se for muito magro, reclama. Há dias em que ele só quer uma sandes.
– Que dia é hoje? – ele perguntou com irritação.
– A decisão é tua.
Nesse momento, Emil entrou na cozinha, limpando os olhos sonolentos.
– Estou com fome-declarou.
– O pai está a estudar – disse Ingrid, e sentou-se na cadeira.
O Lucas engoliu a saliva.
– Emile … querer … cereais?
– Quais? perguntou o rapaz com desconfiança.
– Que tal … este.
– São muito duras. Doem-me os dentes.
Lucas olhou indefesa para Ingrid. Ela apenas encolheu os ombros.
– Tu respondes.
Depois de vinte minutos de negociação, Emil comeu metade do sanduíche sem entusiasmo. O Lucas está um pouco suado.
– Onde está a mochila? – ele perguntou.
– Onde o puseste ontem.
– Não o pus aí!
– Então procura.
Encontraram a mala Debaixo da mesa. Não havia meias do Emil. O Lucas percebeu que não fazia ideia onde estava a outra. Ingrid foi calmamente para o trabalho, deixando-os sozinhos.
Na noite em que ela voltou, o apartamento parecia… diferente. Não é sujo, é mais caótico. Havia cartas escritas à mão sobre a mesa. Há notas pegajosas no frigorífico. Lucas estava sentado no sofá, exausto.
– Fui à loja três vezes-disse ele sem dar um prefácio. Sempre que me esquecia de comprar alguma coisa.
– E? – perguntou a Ingrid.
– O Emil não almoçou. Ele disse que”não é como de costume”.
A Ingrid sentou-se ao lado dele.
– Você sabe-disse ela calmamente-é apenas um dia.
Lucas não falou.
– Não entendi-confessou algum tempo depois. — Realmente. Quantas pequenas decisões. Cada dia. Quantas coisas devemos lembrar.
“Não são ‘coisas'”, respondeu Ingrid. – É a vida. E tempo. Muito tempo.
Lucas esfregou o rosto com a palma da mão.
Quando bloqueei o teu cartão, achei que era normal. É lógico. O que eu estou “otimizando”.
– Você controlou-corrigiu Ingrid.
– Sim-suspirou. – Eu controlei.
O silêncio entre eles não era mais tenso. Ela era pesada, mas sincera.
“Eu não quero ser o chefe”, disse Lucas. – Quero ser sócio.
Ingrid olhou atentamente para ele.
– Então comece com coisas simples-disse ela. A partir de amanhã, temos duas contas separadas. O meu salário está no meu cartão. As decisões são comuns. E você nunca, sob nenhuma circunstância, controla o meu dinheiro.
– Concordo-disse Lucas.
– E mais uma coisa-acrescentou Ingrid. – Da próxima vez que disser que preciso de algo para me sentir melhor… estás a ouvir-me.
Lucas acenou com a cabeça.
Naquela noite, a Ingrid ligou a máquina de lavar pela última vez. Ela era barulhenta, lenta, imperfeita. Mas ela já sabia: nunca foi sobre o equipamento.
Era sobre respeito.
Pela primeira vez em muito tempo, ela sentiu que estava sendo ouvida.
