Cheguei ao porto numa manhã cinzenta, com sal e café barato no ar. A estação zumbiu, as pessoas caminharam rapidamente, cada um com sua vida, sua pressa.

Cheguei ao porto numa manhã cinzenta, com sal e café barato no ar. A estação zumbiu, as pessoas caminharam rapidamente, cada um com sua vida, sua pressa. Ninguém me conhecia. Ninguém sabia quem eu era, o que eu tinha perdido. E foi-para minha surpresa-reconfortante.

Eu aluguei um pequeno quarto em uma casa antiga com uma varanda estreita com vista para os telhados vermelhos. A anfitriã, uma mulher de sessenta anos, sorriu calorosamente para mim E disse que eu poderia ficar o tempo que quisesse. “A vida não tem pressa”, acrescentou, como se estivesse lendo minha mente.

Passei os primeiros dias a caminhar sem rumo. Ruas estreitas, roupa interior pendurada nas janelas, vento carregando o som do oceano. Eu bebia café em mesas pequenas, sentava-me e observava as pessoas. Pela primeira vez, eu não precisava ser útil para ninguém. Eu não precisava ajudar, consertar, salvar.

Uma tarde, fui a uma velha livraria. Eu não estava procurando por nada, mas o cheiro de papel e madeira me fez ficar mais tempo. O dono, um homem de cabelos grisalhos com óculos grossos, perguntou-me de onde eu era. tivemos uma pequena conversa. Então ele me perguntou o que eu estava fazendo.

Com reflexo eu queria responder: “estou trabalhando…”mas parou. Não trabalhava em lugar nenhum. E mais importante, eu não sabia o que queria fazer.

– Ainda não sei-disse honestamente.

Ele sorriu.

– É um bom começo.

Nos dias seguintes, fui à livraria. Ajudava a colocar livros nas prateleiras, a recuperar as entregas. Sem compromissos, Sem promessas. Só porque gostei. Porque estava sossegado. Porque ninguém me pediu nada “porque somos uma família”.

Uma noite, sentada à beira-mar, pensei novamente na minha mãe. Eu percebi o que eu não queria admitir antes: ela não me escolheu menos por causa da crueldade. Ela escolheu-me menos porque sabia que eu ficaria. Porque eu estava segura. Estável. Uma filha que não vai embora. Podia contar comigo. O Lucas tinha de ser salvo.

Talvez fosse esse o seu amor. Torto, irregular, mas Franco. Já não me sentia zangada. Não podia.

Já não respondo ao Lucas. Depois do Porto, veio outra mensagem, depois outra e depois o silêncio. Mais tarde, soube pela minha prima que ele tinha ido trabalhar para outra cidade. Mais um “novo começo “” eu lhe desejei boa sorte. Só isso.

Três meses depois, o dono da livraria sugeriu que eu ficasse. Oficialmente. Por pouco dinheiro, mas para sempre. Eu aceitei. Não pelo dinheiro. Para sentir que estou exactamente onde devia estar.

Uma manhã, eu me olhei no espelho e percebi que a fadiga constante e a tensão haviam desaparecido do meu rosto. As mãos não estavam mais levantadas. Eu respirei de forma diferente. Eu vivi de uma forma diferente.

Não criei uma família. Não me casei. Não porque não pudesse, mas porque, pela primeira vez, não sentia que deveria. Se alguém aparecer, tudo bem. Se não,também é bom.

Numa carta que nunca enviei, escrita apenas para mim, disse à minha mãe: “finalmente aprendi a não me dar em troca do mundo dos outros”.

Juntei o papel e deitei-o fora.

Minha vida não mudou milagrosamente. Não foi fácil.

Mas tornou-se meu.

Pela primeira vez, foi o suficiente.

Related Posts