Quando abri a porta, a primeira coisa que senti foi o silêncio. Um silêncio estranho e pesado que não tem nada a ver com a tranquilidade de uma manhã de domingo. Era um silêncio que me dizia que algo estava errado.
As botas não estavam no corredor, como de costume. Não havia bolsas nem Casacos. O cheiro de detergente barato e comida aquecida pairava no ar. Olhei cuidadosamente para a cozinha.
A pia estava cheia. Os restos de comida secaram nos pratos. Há migalhas de pão na mesa e um prato com o que já foi Ovos Mexidos. A porta do frigorífico estava entreaberta. Abri-os mais amplamente-quase vazio. Só uma garrafa de água e uma lata de mostarda.
Entrei no quarto.
Mathias estava sentado à beira do sofá, com os cotovelos nos joelhos. Ele parecia cansado. Muito mais cansado do que alguma vez o vi. Quando me viu, levantou-se.
– Já o fizeste … – ele disse baixinho.
– Sim-respondi calmamente.
Por alguns segundos, olhamos um para o outro sem dizer uma palavra. Para minha surpresa, não senti raiva. Sem alegria. Apenas um brilho frio.
– Onde estão todos? – perguntei.
Ele respirou fundo e voltou a sentar-se no sofá.
– Saíram ontem de manhã. A mãe estava furiosa. A Ingrid também. A Hannah nem olhou para mim quando saiu.
– Porquê? perguntei, embora já tivesse adivinhado.
– Porque… – ele hesitou. – Porque não cozinhei bem. Porque a comida da carrinha “não é comida a sério” porque lhes pedi para irem às compras. Porque eu disse que nunca mais dormiria no chão.
Eu acenei lentamente.
– O que disseram?
– Que mudaste. Que te mudei. Que uma mulher de verdade não sai da família quando precisa dela.
Sorri brevemente.
– O que lhes disseste?
Ele olhou para mim. Seus olhos estavam vermelhos.
– Eu disse que não és empregada nem cozinheira. Que não é normal ter tudo nos teus ombros. Estou habituado à minha comodidade.
Houve novamente silêncio entre nós. Mas desta vez não foi pesado. Precisava dela.
– Sabes qual foi a parte mais difícil? – continuou ele. – Não cozinhamos. Não limpar. Foi a primeira vez que percebi o quanto te tornaste invisível para mim. Sempre estiveste lá. Foi por isso que deixei de te ver.
Sentei-me na cadeira, sentindo todo o cansaço acumulado se instalar em mim.
– Não parti para te castigar-disse calmamente. – parti porque, se tivesse ficado, teria desaparecido completamente. E eu não queria odiar-te.
Ele acenou com a cabeça.
– Percebi isso tarde demais. Mas … já percebi.
Olhei ao redor do apartamento. Sem estranhos, parecia maior. Mais leve.
– O que queres fazer agora? – ele perguntou.
Pensei por um segundo. Não foi uma pergunta fácil. Mas foi justo.
– Preciso de regras claras. A família pode vir, mas não é por minha conta. Quero respeito. Eu não quero mais ser “óbvio”.
E se a mãe não concordar?
– Então ele virá com menos frequência – respondi calmamente.
Ele sorriu amargamente.
– Talvez seja isso que ele mais teme.
Levantámo-nos quase ao mesmo tempo. Mathias deu um passo em minha direção e depois parou.
– Vais ficar? – ele perguntou.
Olhei-o nos olhos.
– Eu fico. Mas não como antes.
Ele acenou com a cabeça.
Não cozinhei naquela noite. Pedimos comida e comemos em silêncio. Sem desculpas. Sem traduções. Pela primeira vez em muito tempo, o apartamento era nosso. E eu sabia que, se alguma vez me sentisse invisível novamente, não esperaria pela próxima chamada. Vou-me embora outra vez. Mas desta vez não por desespero, apenas pela força.
