A manhã chegou em silêncio, como se o próprio apartamento tivesse medo de fazer um som. A Ingrid acordou cedo, antes do despertador tocar.

A manhã chegou em silêncio, como se o próprio apartamento tivesse medo de fazer um som. A Ingrid acordou cedo, antes do despertador tocar. Ela olhou para o teto por alguns minutos, ouvindo a respiração pesada da avó do quarto ao lado. Pela primeira vez desde que chegou, ela não se sentiu irritada nem cansada. Apenas uma estranha e irresistível tranquilidade.

Ela preparou o pequeno-almoço sem pressa. Um pouco de chá, torradas, um pouco de queijo. Ela colocou a bandeja na mesa e parou. Ela não chamou a avó. Ela sabia que Elizabeth Marekovna não se levantaria sozinha.

– Ingrid… a voz vinha do Quarto, mais silenciosa do que o normal.

A Ingrid entrou no quarto. A avó estava sentada, encostada aos travesseiros, pálida, com um olhar fixo para um ponto invisível.

– Notário… – ela começou, depois cortou. – Ele vai chegar atrasado.

A Ingrid assentiu. Ela não perguntou nada.

– Não dormi bem-murmurou a idosa. – Passei a noite a pensar.

– Sobre o quê? – perguntei calmamente à Ingrid.

Elizabeth Marekovna respirou. Pela primeira vez, não havia aço em sua voz.

– Sobre a tua mãe.

O coração de Ingrid encolheu, mas ela não disse nada.

– Saber… – a avó molhou os lábios, – não discutimos por Dinheiro. Pelo menos não naquela altura. Era mais fácil pensar assim.

Ela olhou para Ingrid como se ela não estivesse ouvindo.

– Eu estava com medo-continuou ela. – Velhice. Solidão. Vou deixar de ser necessário. É a tua mãe … ela não sabia ter medo. Ela sempre seguiu em frente.

Ingrid sentou-se na cadeira ao lado da cama.

– Podias ter-me dito isso.

– Não, a avó balançou a cabeça. A cada ano fica mais difícil. Depois ela morreu e tudo o que me resta é culpa. E tu. Com os olhos dela.

Houve silêncio. Da cozinha vinha o cheiro do chá.

– Quando você chegou-disse ela calmamente-eu pensei que tudo se repetia. Que alguém me quer tirar algo de novo. E a verdade é que eu é que estava a segurar tudo demasiado apertado… antes que me tire o fôlego.

A Ingrid olhou para baixo.

– Não vim pelo apartamento.

– Eu sei-disse a avó. – Agora sei.

Por algum tempo eles ficaram em silêncio. Então Elizabeth Marekovna estendeu a mão. Com hesitação. A Ingrid abraçou-a.

– O notário não virá-disse a avó. – Liguei e cancelei.

A Ingrid levantou os olhos.

– Porquê?

– Porque não quero deixar nada para si. E não quero mais usar o testamento como arma. Estou cansada.

Sua respiração estava pesada, mas calma.

– Apartamento … não importa. É importante que não vás embora com a sensação de que és o inimigo.

Ingrid sentiu lágrimas sob as pálpebras, mas não chorou.

– Vou ficar mais alguns dias-disse ela. – Se quiseres.

– Eu quero-respondeu a avó sem hesitar. – E… se puderes … fala-me de ti. Não é sobre o trabalho. Sobre ti.

O sol lentamente entrava na sala, iluminando paredes antigas, fotos amareladas, rostos de anos passados. O apartamento não parecia mais hostil. Só os velhos. Como uma história contada tarde demais-mas por uma boa razão.

Mais tarde, Ingrid abriu a janela. O ar fresco expeliu o cheiro pesado dos medicamentos. Alguém estava rindo na rua.

A vida não pode ser completamente corrigida, pensou ela. Mas às vezes as fissuras deixam de doer.

E isso foi o suficiente.

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