A manhã foi tranquila. Suspeitosamente silencioso. Mareta acordou sem despertador, sem pressa, sem o aperto familiar no estômago que a acompanhava nos últimos meses.

A manhã foi tranquila. Suspeitosamente silencioso. Mareta acordou sem despertador, sem pressa, sem o aperto familiar no estômago que a acompanhava nos últimos meses. A pálida luz de novembro penetrava pelas cortinas, e o apartamento estava cheio de silêncio puro e desinibido — nem os passos nervosos nem os suspiros demonstrativos o perturbavam.

Ela sentou-se na cama e, pela primeira vez em muito tempo, sentiu que podia respirar profundamente. Na cozinha, ela colocou o café, depois sentou-se à mesa e olhou para a xícara vazia na frente dela. Os pensamentos não eram caóticos. Estava tudo claro. Dói, mas é claro.

Ela não chorava à noite. Não porque não dói,mas porque algo nela finalmente se fechou. Como uma porta que uma vez se fechou, não se abre mais do lado de fora.

Por volta do Meio-dia, o telefone vibrou. Mensagem do Eric.

“Espero que estejas a pensar. Falamos logo à noite.”

Mareta leu a mensagem duas vezes antes de colocar o telefone para baixo. Ela não respondeu. Ela jantou calmamente, lavou a louça, ventilou os quartos. Então ela tirou uma caixa velha do armário-documentos, papéis, casos que ela sempre reservava para mais tarde.

Certificado de propriedade do apartamento. Contrato. Estava tudo em nome dela. Ela sorriu amargamente. Quantas vezes ela se desculpou por isso, como se fosse culpa dela?

Durante o dia, ela saiu para passear. O ar frio colocava os pensamentos em ordem. Ela passou pelo café na Ringstrasse sem parar. Ela não precisava ver mais nada para entender tudo.

O Eric chegou esta noite.

Ele abriu a porta com sua chave antiga, como se nada tivesse acontecido. Ele tinha a mesma expressão-confiante, um pouco cansado, mas confiante de que a situação ainda estava sob controle.

– Podemos falar? – ele perguntou, arrumando a bolsa.

A Mareta estava à mesa. Calmo. Direto.

— Assim. Mas não por muito tempo.

Eric levantou as sobrancelhas com surpresa.

– Estava nervoso. Também foste teimosa. Ambos cometemos erros-começou num tom conciliatório. – Podemos deixar isso para trás.

– Não-disse Mareta.

Uma palavra. Sem hesitação.

– Como assim, não? – ele perguntou irritado.

– Significa que não quero mais. Eu não quero consertar o que lentamente me destruiu. Não quero explicar mais. Não quero ser a lição de ninguém.

Eric riu-se brevemente.

– Estás a exagerar.

— Talvez. Mas a decisão foi tomada.

Ela entregou-lhe a pasta.

– Aqui estão os documentos. Você tem dois dias para pegar o resto das coisas. Deixa a chave na mesa.

O Eric congelou.

– Não pode fazer isso.

— Poder. E eu faço.

Pela primeira vez, Eric não encontrou uma resposta. Ele olhava para ela como se fosse uma estranha. Talvez porque, finalmente, ela realmente se tornou.

Quando ele saiu, a porta não estalou. Está trancado.

Maria ficou sozinha no apartamento. Mas já não me sentia sozinha.

Ela foi até à janela. As folhas ainda caíam do lado de fora. O outono tem o seu ritmo. E ela, pela primeira vez há muito tempo, sentiu que sua vida também estava avançando — não para trás, não em um círculo, mas para a frente.

E isso foi o suficiente.

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