Foi uma noite difícil. A Elina mal se encostou. A dor maçante pulsava no joelho, mas a pressão no peito era ainda mais forte — um tipo de dor que não é visível em nenhum raio-x. As palavras de Lorenzo continuavam a circular em sua cabeça, repetindo como um eco: “caso contrário, o divórcio”. Ela já as tinha ouvido antes, muitas vezes, mas naquela noite algo se quebrou para sempre.
Quando o amanhecer começou, Elina lentamente tirou a perna do travesseiro e sentou-se na borda do Sofá. Cada movimento foi cuidadoso, ponderado. Ela não queria piorar o ressentimento, mas não queria mais fingir. Pela primeira vez em muito tempo, ela sentiu uma clareza dolorosa: ela não pode continuar vivendo assim.
O telefone vibrou na mesa. Mensagem de Lorentz:
“Minha mãe chega ao meio-dia. Tens tempo.”
Elina fechou os olhos. Tens tempo. Não “como te sentes?”não”ajudar”. Apenas uma equipa de rotina fria.
Ela se levantou e, em vez de ir para a cozinha, foi até o armário onde guardava os documentos. Ela pegou uma pasta-passaporte, certidão de casamento, contrato de aluguel do apartamento em que morava antes do casamento. Ela os segurou “apenas no caso”, como uma amiga certa vez a aconselhou. Então ela sorriu. Já não havia lugar para o sorriso.
Quando a campainha tocou, Elina já estava vestida. Não em coisas de casa, mas em um vestido simples e confortável e um casaco fino enrolado nos ombros. A bala estava perto da porta.
O Lorenz abriu. Greta entrou primeiro, com uma bolsa grande e uma expressão de confiança.
– Onde está o almoço? ela perguntou imediatamente, sem cumprimentar.
Elina saiu do quarto apoiada em uma muleta.
– Bom dia, Greta-disse calmamente. – A mesa não está posta.
Greta olhou para ela com desconfiança.
– Como é que não é? Estás doente, mas não estás a morrer.
Lorenz interveio com nervosismo.:
– Elina, o que significa isso?
Elina respirou fundo. Sua voz era surpreendentemente confiante.
– Significa que não vou cozinhar. Nem hoje, nem amanhã. Não porque não possa, mas porque não quero mais ser tratada como uma criada.
A Greta murmurou desdenhosamente.
– É o que a mulher diz?
– Não-respondeu Elina. – É o que diz uma mulher cansada.
Lorenz deu um passo em direção a ela.
– Não comeces agora. A mãe está aqui.
– É por isso que começo agora.
Ela virou-se para a Greta.
Por muitos anos eu tentei ser “suficiente”. Bastante silenciosa, bastante obediente, bastante graciosa. Cozinhei, limpei, Cedi. E quando eu realmente precisava de apoio, ouvi dizer que estava exagerando.
Greta olhou para ela com superioridade.
– O meu filho merece mais.
Elina sorriu com tristeza.
– Então, deixe-o procurar em outro lugar.
Ela tirou um envelope da bolsa e o entregou a Lorentz.
– São os meus documentos. Vou-me embora. Não hoje, nem porque me ameaçaste. Vou-me embora porque é a primeira vez que me escolho a mim mesmo.
O Lorenz calou-se.
– Estás louca? Com este joelho? Para onde vais?
– Onde ninguém me diz que a minha dor não importa.
Ela virou-se, pegou na bala e abriu a porta. No limiar, ela parou por um momento.
O divórcio que estás a atirar como uma arma, Eu aceito. Mas não como um fracasso. Como uma libertação.
A porta fechou-se em silêncio, sem bater palmas.
Elina desceu cuidadosamente as escadas. Cada passo era difícil, mas no peito ela sentia algo novo — não um alívio, mas um começo. O ar lá fora era fresco e limpo.
Pela primeira vez em muitos dias, o céu estava sem nuvens.
Ela chamou um táxi e sentou-se no banco de trás. Ela olhou para a cidade que acordou. Pessoas apressadas, cafés abertos, vida.
Pela primeira vez em muito tempo, o futuro não a assustou.
Doía-lhe o joelho.
Mas a alma já não existe.
Foi o suficiente para começar de novo.
