A primeira coisa que Mariana notou foi o cheiro amargo.
Ergueu-se do copo na mão da sogra, afiado e químico, cortando o cheiro quente de arroz, feijão e alho frito que ainda permanecia na pequena cozinha.
Mariana recuou instintivamente, com uma mão protegendo a barriga inchada.
“O que é isso?”ela sussurrou.
Dona Teresa sorriu, mas não havia gentileza em seu rosto.
“É remédio”, disse ela. “Algo para te acalmar.”
Mariana encarou o líquido turvo. Seu coração começou a bater forte.
Ela estava grávida de sete meses. Durante semanas, Teresa reclamou que o bebê destruiria o futuro de Daniel. Ela disse que Mariana o havia prendido, roubado de sua família e o virado contra a própria mãe.
Mas Mariana nunca imaginara que Teresa chegaria tão longe.
“Eu não estou bebendo isso.”
O sorriso de Teresa desapareceu.
“Você vai beber.”
Ela agarrou o pulso de Mariana e a puxou em direção à mesa da cozinha.
Mariana gritou enquanto a dor atravessava seu braço.
“Deixe-me ir!”
“Você nunca deveria ter entrado nessa família”, sibilou Teresa. “Estava tudo bem antes de você chegar.”
O vidro tremia na mão de Teresa enquanto ela tentava forçá-lo contra os lábios de Mariana.
Mariana virou o rosto, lutando para respirar.
“Por favor! Pense no bebê!”
“Esse bebê é o problema!”
As palavras congelaram Mariana.
Por um segundo terrível, ela entendeu.
Não foi uma tentativa de assustá-la.
Teresa queria matar o filho.
Mariana gritou.
Naquele momento, a porta da cozinha se abriu.
Rosa, a empregada idosa que trabalhava para a família há mais de trinta anos, correu para dentro. Seus cabelos grisalhos haviam se soltado do coque e suas mãos ainda estavam molhadas de lavar roupas no quintal.
“Dona Teresa, pare!”
Teresa mal teve tempo de se virar.
Rosa golpeou o vidro de sua mão.
Ele se espatifou contra o chão.
O líquido espirrou pelos azulejos, deixando uma mancha pálida que começou a fumegar levemente perto dos pedaços quebrados.
Mariana tropeçou, agarrando a beirada da mesa.
Rosa se colocou entre as duas mulheres.
“Você perdeu a cabeça?”Gritou Rosa. “Ela está carregando seu neto!”
O rosto de Teresa se contorceu de raiva.
“Seu servo estúpido! Isso não é da sua conta!”
“Virou assunto meu quando você tentou assassiná-la.”
Mariana mal conseguia ficar de pé. Lágrimas turvaram sua visão.
“Rosa … chame a polícia.”
Rosa enfiou a mão no avental para pegar o telefone.
Antes que ela pudesse tirá-lo, passos soaram no corredor.
A porta da frente bateu.
“Daniel!”Mariana chorou.
O alívio inundou-a tão repentinamente que seus joelhos quase cederam.
O marido apareceu na porta da cozinha com a roupa de trabalho, o rosto tenso e pálido.
Mariana correu em direção a ele.
“Daniel, graças a Deus! Sua mãe tentou me envenenar. Ela tentou me fazer beber alguma coisa. Rosa viu tudo!”
Daniel olhou para o vidro quebrado.
Então ele olhou para sua mãe.
Teresa não disse nada.
Mariana esperou ele explodir, para protegê-la, para chamar uma ambulância.
Em vez disso, Daniel fechou calmamente a porta da cozinha atrás de si.
O clique da fechadura soou mais alto que o vidro quebrando.
O sorriso de Mariana esmaeceu.
“Daniel?”
Enfiou a mão no bolso do paletó.
Quando sua mão emergiu, ele estava segurando uma pequena garrafa marrom.
Mariana parou de respirar.
“Não…”
Daniel evitou os olhos dela.
“Você deveria ter bebido o primeiro”, disse ele baixinho. “Teria sido mais fácil.”
Rosa o encarou horrorizada.
“Você sabia?”
A mandíbula de Daniel apertou.
“O bebê muda tudo. A casa, a herança, o negócio… tudo isso.”
Mariana balançou a cabeça devagar.
“Do que você está falando?”
“A vontade do meu pai”, respondeu Daniel. “Se o bebê nasce, parte da propriedade da família vai para um fundo sob o nome da criança.”
Mariana sentiu como se o chão tivesse desaparecido embaixo dela.
“Você queria nosso filho morto por causa do dinheiro?”
Daniel finalmente olhou para ela.
“Era para parecer uma complicação.”
Mariana pressionou as duas mãos sobre a barriga.
O bebê se mexeu.
Esse pequeno movimento lhe deu força.
“Você é um monstro.”
A expressão de Daniel endureceu.
Ele abriu a garrafa.
Rosa pisou na frente de Mariana novamente.
“Você vai ter que passar por mim.”
Daniel agarrou Rosa pelo ombro e a jogou contra o armário.
Ela bateu na madeira e caiu no chão.
“Rosa!”Mariana gritou.
Daniel agarrou Mariana pela nuca.
Ela lutou com ele, coçando suas mãos e chutando suas pernas, mas ele era mais forte.
“Abra a boca!”ele gritou.
“Não!”
Ele pressionou a garrafa contra os lábios dela.
O cheiro queimou seu nariz.
Mariana prendeu a respiração e cerrou os dentes.
Daniel apertou sua mandíbula dolorosamente.
“Beba!”
Rosa lutou para subir.
Sua visão estava embaçada, mas ela podia ver Mariana enfraquecendo.
Ela pegou uma cadeira de madeira e se empurrou para cima.
Daniel ouviu o movimento e se virou.
Rosa balançou a cadeira em sua direção.
Atingiu seu ombro, derrubando a garrafa de sua mão.
O veneno se espalhou pelo chão.
Daniel olhou para a garrafa vazia.
Então algo dentro dele quebrou.
“Você estragou tudo!”
Ele correu para o balcão, abriu uma gaveta e pegou uma faca de cozinha.
Mariana recuou em direção ao muro.
“Daniel, por favor.”
Ele se moveu em direção a ela, a lâmina tremendo em sua mão.
Rosa deu um passo à frente.
“Largue isso.”
“Fique fora disso!”
“Você não está matando ela.”
Daniel empurrou Rosa para o lado e correu em direção a Mariana.
Ela não tinha para onde ir.
A parede encostou nas costas dela. Suas mãos cobriram sua barriga. A faca subiu acima da cabeça de Daniel.
Mariana fechou os olhos.
Ela pensou no primeiro movimento do bebê.
Pensou na mantinha azul dobrada dentro do guarda-roupa do quarto.
Ela pensou que ia morrer.
Daniel abaixou a faca.
Mas a lâmina nunca a alcançou.
Seu corpo estremeceu violentamente.
Ele perdeu o equilíbrio e caiu no chão.
A faca deslizou por baixo da mesa.
Rosa estava deitada atrás dele, com os dois braços em volta do tornozelo.
“Corre!”ela gritou.
Mariana mexeu.
Ela destrancou a porta da cozinha e correu para o corredor, gritando por socorro.
Daniel chutou Rosa no ombro e tentou ficar de pé, mas ela se recusou a soltá-lo.
“Seu velho tolo!”ele rugiu.
Rosa apertou o aperto.
“Eu posso ser velha”, ela engasgou, ” mas não tenho medo de covardes.”
Os vizinhos começaram a bater na porta da frente.
Mariana chegou e girou a fechadura.
Três pessoas correram para dentro, seguidas por um policial que passava no final da rua quando alguém ouviu os gritos.
Daniel congelou.
Teresa tentou passar pela porta dos fundos, mas outra vizinha bloqueou seu caminho.
Em poucos minutos, mãe e filho estavam algemados.
Uma ambulância levou Mariana e Rosa ao hospital.
Os médicos confirmaram que mesmo uma pequena quantidade do líquido poderia ter matado Mariana e seu feto.
Rosa teve o ombro fraturado, mas sobreviveu.
Dois meses depois, Mariana deu à luz uma menina saudável.
Ela a chamou de Rosa.
No julgamento, Daniel se recusou a olhar para a esposa.
Mas Teresa encarou a solteirona com ódio ardente.
Rosa olhou para trás sem medo.
Porque todos no tribunal finalmente sabiam a verdade.
A mulher que eles trataram como uma serva silenciosa fora a única pessoa naquela casa corajosa o suficiente para ficar entre uma mãe e a morte.
