Um ano após o meu divórcio, a minha ex-sogra viu-me na clínica e riu-se na minha cara:
— O meu filho fez bem em deixar-te. Agora ele finalmente tem uma filha de verdade com a tua ex-melhor amiga.
Eu apenas sorri e respondi calmamente:
— E em que é que ela acredita exatamente?
Foi quando a porta se abriu… e ela ficou completamente pálida.
— Fizeste bem em deixá-la — disse Dona Graciela Luján com um sorriso frio, que fez várias pessoas na sala de espera virarem a cabeça.
Lucía Robles fechou lentamente a pasta que tinha nas mãos.
Já tinha passado um ano desde o divórcio, mas aquela mulher continuava igual: perfume caro, maquilhagem perfeita e aquele ar de superioridade de quem acredita que o mundo inteiro lhe deve algo.
Estavam na clínica de fertilidade Horizonte, em Santa Fé, numa terça-feira de manhã.
Lucía chegara vinte minutos mais cedo para uma reunião com o diretor médico e o seu advogado.
Não esperava encontrar ninguém da família Luján.
Muito menos a ex-sogra.
Dona Graciela estava impecável: pérolas ao pescoço, mala de marca, vestido bege cuidadosamente escolhido para parecer inocente.
Parou diante de Lucía como se estivesse a olhar para algo descartado.
— Que curioso ver-te aqui — disse ela, baixando a voz. — Depois de tudo… pensei que já tinhas entendido que algumas mulheres nascem para ser mães. Outras não.
Lucía sentiu o peito apertar.
Mas não desviou o olhar.
Durante seis anos, ela e Andrés Luján tinham tentado ter um filho. Injeções, tratamentos, hormonas, consultas intermináveis, dívidas, noites de choro silencioso e duas perdas que a quebraram por dentro.
Depois da última, Andrés deixou de a abraçar.
Depois deixou de a ouvir.
Depois começou a dizer que ela “já não era a mesma”.
Nesse tempo, Fernanda Rivas — a sua melhor amiga da universidade — tornou-se o seu “apoio”.
Primeiro mensagens.
Depois cafés.
Depois viagens de trabalho.
E por fim… o pedido de divórcio.
— O Andrés está feliz agora — continuou Dona Graciela. — A Fernanda deu-lhe uma filha linda. A Camila é uma bênção. Uma verdadeira família. Algo que tu nunca lhe podias dar.
Lucía respirou fundo.
Essa frase teria destruído-a meses antes.
Agora não.
Porque quatro meses depois do divórcio, ela recebeu por engano um aviso da clínica.
O seu antigo e-mail ainda estava ligado ao processo.
Primeiro pensou que era uma taxa administrativa.
Mas depois viu a data.
Transferência de embrião.
Duas semanas depois de Andrés pedir o divórcio.
O embrião não tinha sido da Fernanda.
Era dela.
De Lucía.
Criado com Andrés.
Um embrião congelado que nunca poderia ser usado sem a assinatura dos dois.
E Lucía nunca tinha assinado.
Dona Graciela inclinou-se ligeiramente, saboreando cada palavra:
— Essa menina é a prova de que o meu filho fez a escolha certa.
Lucía levantou o olhar e sorriu.
Calmamente.
— E é nisso que a senhora acredita?
Antes que Dona Graciela pudesse responder, as portas automáticas abriram-se.
Um homem alto entrou.
Fato escuro.
Pasta selada debaixo do braço.
Não caminhava como médico nem como paciente.
Caminhava como alguém que vinha encerrar uma história.
Dona Graciela viu-o… e empalideceu.
Reconheceu-o imediatamente.
Toda a família Luján conhecia aquele homem.
Era o comandante Javier Ocampo, do Ministério Público.
O mesmo que anos antes investigara um sócio de Andrés por fraude.
Ele parou ao lado de Lucía e acenou com respeito.
Depois olhou para Dona Graciela.
— Senhora Luján — disse ele com voz firme. — É bom vê-la aqui.
Ela apertou a mala com força.
— Não sei do que está a falar.
O comandante levantou a pasta selada.
— Estou a falar da menor Camila Luján Rivas.
Silêncio.
— Todas as provas indicam que a criança foi concebida através de um embrião congelado pertencente à senhora Lucía Robles… e que o consentimento médico foi falsificado.
A sala inteira congelou.
Lucía inclinou ligeiramente a cabeça e olhou para a ex-sogra.
— Ainda acha que o seu filho fez a escolha certa?
Dona Graciela tentou responder.
Mas não saiu nada.
Só um som seco.
E quando o diretor da clínica saiu apressado do gabinete… ninguém ali imaginava o que viria a seguir.
