O helicóptero voou baixo sobre a densa floresta de Embu-gua Elimu. Milhares de folhetos caíram e espalharam-nos no chão. Em cada um estavam os rostos de Liana bei Friedenbach, de 16 anos, e de Felipe Silva Caff, de 19, dois estudantes que partiram do S Elimo Paulo para um fim-de-semana tranquilo e nunca mais voltaram. No andar de baixo ficava entre a polícia e as equipas de busca, o pai de Liana, Ari Friedenbach. Os dias passaram, as linhas telefônicas pararam de pagar e as contas não puderam mais ser liquidadas. Quanto mais o tempo passava, mais difícil se tornava acreditar que esses dois adolescentes simplesmente haviam vagado por um território desconhecido.
Enquanto a polícia voltava por fazendas abandonadas e calçadas estreitas, dois nomes continuavam sendo repetidos. Os nomes dos moradores locais que estão associados a essas florestas e medo. Quando a verdade veio à tona, um adolescente já estava morto e o outro logo sofreu o mesmo destino. Trata-se da história de dois jovens estudantes que desapareceram na floresta de Embu-Gua7u e foram mantidos em cativeiro durante vários dias por um grupo de cinco pessoas. O que aconteceu a seguir tornou-se um dos casos criminais mais perturbadores da história brasileira.
Liana bei Friedenbach cresceu em S Elimo Paulo numa casa onde a estrutura, a confiança e a rotina moldaram sutilmente a sua vida quotidiana. Desde tenra idade, ela foi cercada por uma sensação de estabilidade que a fez sentir-se segura e compreendida. Ela morava com os pais e o irmão mais novo em um bairro de classe média alta. Em casa, as conversas eram abertas, as expectativas eram claras e o amor era constante, mas nunca sufocava. Seu pai, Ari Friedenbach, trabalhava como advogado, e sua mãe liderava a casa, criando um ambiente em que a disciplina e a atenção coexistiam. Liana tinha uma relação particularmente próxima com seu pai, e este vínculo impressionou todo mundo que conhecia, porque estava baseada na confiança, em vez de controle. Ari sabia da sua rotina, seus hábitos e o ritmo de seus dias. Liana, por sua vez, explicou-lhe para onde ia, com quem estaria e quando planeava regressar. Ele não se sentir como ele tinha para torná-lo obrigatório, mas foi algo que aconteceu naturalmente, porque o seu relacionamento era baseado em sinceridade, e essa sinceridade nunca tinha sido verificado antes.
Ari costumava levá-la ao ponto de ônibus para programas escolares, de ginástica ou para jovens e, com o tempo, essas pequenas rotinas passaram a fazer parte da norma, porque, desde que fossem seguidas, tudo parecia bem. A fé e a disciplina desempenharam um papel tranquilo, mas importante, na vida de Liana, e ela se envolveu ativamente em sua comunidade religiosa, programas para jovens e atividades sociais que lhe deram um forte sentimento de pertença. Ela cuidava da sua saúde e levava a sério a forma física, passando tempo no ginásio e prestando atenção ao seu bem-estar, não por pressão, mas porque a fazia sentir-se equilibrada. Ela também tinha um estilo pessoal distinto, vestindo roupas escuras, ouvindo rock e usando acessórios que a diferenciavam de seus colegas.
A educação era importante na família Friedenbach, e Liana a levava tão a sério quanto outras áreas de sua vida. Ela pensou na melhor forma de aprender e, depois de discutir com os pais, decidiu mudar para as aulas noturnas, acreditando que isso a ajudaria a lembrar melhor as informações no final do dia. Em agosto de 2003, os seus pais transferiram-na para a escola privada de maior prestígio de São Paulo, não porque tivesse problemas com o local onde vivia, mas porque queriam colocá-la num ambiente que a estimulasse academicamente e lhe abrisse mais portas no futuro. Mudar-se para uma nova escola no meio do semestre não foi fácil. A princípio, Liana teve problemas para se ajustar, mas rapidamente encontrou seu lugar e se acostumou com a rotina. Aos 16 anos, Liana já estava pensando no futuro e falava abertamente sobre seus planos, incluindo o interesse pela educação física e, finalmente, estudando na Universidade. Apesar da sua pouca idade, começou até a preparar-se para o exame Fuvest, porque o planeamento precoce lhe parecia natural, e a sua família percebeu isso como mais um sinal da sua estabilidade. Não havia nada em sua vida que indicasse imprudência ou sigilo; pelo contrário, os pais dela pensavam que sabiam que sua filha, porque ela deu todos os motivos para fazê-lo. Em seguida, Liana com 16 anos de idade se apaixonou pela primeira vez, e foi quando tudo mudou.
Felipe Silva Caff9vinha de uma origem mais calma e modesta do que a Liana, mas era um ambiente que alimentava uma personalidade profundamente decidida e pensativa. Aqueles que o conheciam muitas vezes o descreveram como um jovem que naturalmente assumiu a responsabilidade sem ter que mostrá-lo. Felipe frequentou o Col8gio S2O LU2 com uma bolsa de estudos, o que foi importante porque significava que ele merecia o seu lugar através de muito trabalho e dedicação, não de laços familiares ou privilégios. Durante o dia, ele trabalhou em vários lugares para se sustentar e aliviar o fardo financeiro de sua família. E à noite ele estudava, muitas vezes vindo para a escola cansado, mas nunca calmo. Ele falou sobre suas ambições, incluindo um interesse em Direito e um desejo de um dia se juntar à polícia.
Quando Felipe conheceu Liana, o seu vínculo não se desenvolveu dramaticamente ou através de grandes gestos, mas sim naturalmente, através de conversas curtas e momentos partilhados nas dependências da escola, onde os alunos se reuniam entre as aulas. Liana era nova, vestida de forma diferente da maioria de seus colegas de classe, e exalava uma confiança tranquila que era notável, e Felipe percebeu isso quase imediatamente. Amigos disseram mais tarde que esses dois jovens se entendiam bem desde o início. Felipe tratou Liana com cuidado, o que seu pai especialmente não percebeu. Certa tarde, Ari Friedenbach foi à escola buscar a filha e, quando Liana caminhou até o carro, Felipe a acompanhou até a porta e depois se virou. Ari ouviu atentamente a conversa, e então, quase casualmente, perguntou: “este é seu amigo? Liana sorriu E respondeu: “Ainda não.”No dia seguinte, a mesma rotina foi repetida, Felipe a acompanhou de volta ao carro. E desta vez, quando Liana entrou, ela olhou para o pai e disse: “Adivinha? Agora é meu amigo.”Ari estava feliz que sua filha estava indo bem. Embora ainda não conhecesse bem Felipe, decidiu não interferir ou pressioná-lo demais, confiando que o julgamento de Liana sempre fora bom. Para Liana, essa relação foi sua primeira experiência de amor. Para Felipe, foi algo que ele levou a sério, não apenas com entusiasmo. Nos dois meses seguintes, de agosto a setembro de 2003, aproximaram-se, passando tempo juntos sempre que podiam, partilhando planos e até trocando alianças de votos. Contudo, após dois meses de namoro, eles tomaram uma decisão que mudou tudo.
A ideia da viagem não começou como uma ideia misteriosa ou mal pensada. A princípio, parecia que este era apenas um plano simples para passar o fim de semana fora da cidade. Felipe estava em Embu-Gua7 com seus amigos e, em sua mente, era um lugar onde eles podiam acampar, cozinhar juntos e escapar da pressão da escola e do trabalho por um tempo. Quando ele contou a Liane, ela ouviu com interesse, sem hesitação. Inicialmente, o plano incluía outras pessoas. Os amigos de Felipe deveriam ir com eles, e isso foi importante, porque a viagem nunca foi feita para ser apenas uma fuga privada para os dois. Mas com o passar dos dias, esses planos começaram a desmoronar silenciosamente. Um amigo cancelou a participação por causa do trabalho, outro por causa das responsabilidades familiares e outro simplesmente não apareceu. A cada cancelamento, o grupo ficava menor até restar apenas um amigo. Naquele momento, Felipe ainda queria fazer uma viagem e Liana queria passar um tempo com ele. Eles discutiram, consideraram as opções e depois concordaram em continuar, acreditando que nada havia mudado na própria viagem, exceto pelo número de participantes. Para eles, ainda era uma curta viagem de acampamento da qual voltariam com histórias e fotos, não algo a ser questionado demais.
